ojerum

„ESTOU PROCURANDO UM NÃO PARA MIM“, diz Terezinha em suas orações: “Oh, Senhor, dê-me um não que reúna as células dispersas da minha matéria e construa paredes em torno de minha alma!” Reza sozinha nas madrugadas, tremendo de calor em sua cela escura. Sabe bem que no ventre esvaziado da manhã repousarão já os germes, as futuras larvas dos sins farfalhentos, ameaçando a paz espiritual do dia. 

Ao lado da cabeceira o breviário repousa, mudo. Das paredes escuras a umidade ainda escorre, quente e viscosa. Misericórdia: “Meu bom Deus, por que não me destes um corpo?” E quase envergonhada de sua nudez diante dos olhos do Senhor, tapa pés e cabeça com o lençol. Tereza deseja um não para cobrir seus milhares de sins espalhando-se, andando em todas as direções do pequeno quarto. Os sins fazem um barulho imenso correndo de lá para cá como diabretes impertinentes, despudorados. Como formigas se aconchegam de baixo da cama, rolam entre as cobertas, afogam-se na tigela de leite morno sobre o criado-mudo. Soltam gritinhos de desespero e prazer ao despencar pela janela. Penetram as páginas de seu livro de oração, infiltram-se insidiosos em orifícios, causando uma coceira pontual, pungente. Tereza geme: “Deus misericordioso!” Mas não ter contornos impede o espírito de tocar apenas os limites, ele se desdobra sobre os móveis, os atravessa, crescendo e diminuindo, sempre prestes a se dissolver como fumaça. Como as vagas do oceano Tereza preenche-se e esvazia-se, diluindo-se em diferentes sins que são as moléculas de uma crença que nunca retorna intacta, ela é sempre outra.

Durante o dia não. Aí ela é uma: imagem compacta definida pela mortalha marrom, a cabeça coberta por um véu funesto, impermeável, uma entre outras umas. Sorriso contido de fotografia. Olhar docemente embotado. A íris cinza jazendo em um vasto átrio de paz, em que as irmãs creem aliviadas. Creem serenas como se… como se não tivessem ventre. As freiras sabem brincar, ela não. Ela não sabe ser esposa sem ser também mãe. Por sorte, o olhar de desapego das monjas esfria os sinzinhos ainda fervescentes. O murmúrio das orações matutinas embalam as afirmações numa canção de ninar: requiescat in pace, filii mi. E durante os passeios pelo jardim e corredores arejados, a rotina crua de atos silenciosos deixa por fim as pulsações recuarem, acuadas. Agora já é quase com ternura que responde às jaculatórias cotidianas: Para sempre seja… Ela sorri, enquanto as horas escoam como as contas de um rosário, repetitivas, apáticas, quase indolentes. Mas ao anoitecer, na contemplação das sombras desfocadas, seu corpo estremece sob as cobertas ásperas. Sob o ar abafado, as bainhas do hábito se descosturam, as bordas do véu soltam os fios, a máscara do espírito de toda se desmancha, e o rosto se expõe rubro, vívido, transformando a doçura do sorriso em um êxtase insuportável, dolorido. 

A noite, um grande sim. Um sim sentado sobre o ventre intumescido, um sim florescente em pétalas de lótus. E assim envolta pelo ar asfixiante de um Deus impalpável, ela se transborda. O doce morno do sim a faz parir miríades de asserções como gotas de suor, sua pele pálida se umedece de um orvalho viscoso, de emanações que remetem ao odor de jasmins, um cheiro tão demasiadamente adocicado que a faz vomitar a si mesma. Já esse jorro, provindo de suas entranhas, é salgado, de um gosto de água oceânica, de profundezas turvas. A umidade evapora-se sob o mormaço do quartinho, concentra-se no teto mofado e chove sobre ela, alagando seu corpo perfurado pelos sins. Êxtase insuportavelmente dolorido. „Amado, dê-me a graça de um não forte, imutável, repetitivo, todo coisa”, implora, arquejante. Mas a figura do esposo na parede vira-lhe o rosto, chocado e surpreso, negando-lhe o desejo íntimo de um não redentor. 

E assim, mesmo antes do amém, vem a exaustão dos sentidos e, sob o abraço firme do cilício, a vigília se esgota em um desmaio. Em seu sono sem sonhos o cantar distante do galo distorce seus lábios ainda úmidos em um sorriso. Lentamente a pele enrubescida se recompõe do abuso e empalidece. Num suspiro de alívio, o ventre vazio, relaxa.


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