CLARO QUE SONHEI COM LIVROS. Pra ser mais preciso, sonhei com os livros de minha biblioteca. Mas muitos não tenho, diria uns cem ou pouco mais. Quase todos se encontram enfileirados em uma estante de madeira de quatro prateleiras e são de diferentes tamanhos e conteúdo. Possuo vários romances, volumes de poesia, livros de fotografia, alguns dicionários, duas ou três gramáticas e poucos exemplares científicos. Uma biblioteca insignificante em um quartinho minúsculo. Mas me presenteei também umas edições exclusivas de romances importantes que dormem enfileirados sobre uma mesinha ao lado da cama. E foi com estes livros tão conhecidos que sonhei há alguns dias.

Como disse, sonhei com livros, e sonhei de uma forma muito estranha, era como se fossem vivos e cada um demonstrasse seu caráter de forma bastante singular. Estava deitado e dormia, mesmo assim tinha consciência do silêncio e escuridão ao redor. De repente ouço um farfalhar, como quando o vento folheia algumas páginas. Uma risadinha e de repente um baque abafado de algo pesado tombando ao chão. Liguei a luz do abajur e, para minha surpresa, avistei alguns volumes pairando no ar. Eles não só pairavam, não, eles dançavam no espaço como corpos flutuantes. Moviam-se lentamente pra lá e pra cá balançados por uma música inaudível. Era um quase tocar e separar de dançarinas de balé. Os livros rodeavam devagar, caiam quase até o chão como folhas de outono e se elevavam com ímpeto de novo para o ar. Alguns esvoaçavam através da janela aberta para dentro da noite escura e desapareciam no céu feito balões coloridos. Outros colavam-se ao teto do quarto, ou se diluiam em nevoeiro, e mais outros ainda caiam lentamente sobre objetos duros e se estilhaçavam em mil pedaços. Um volume de poemas de Rilke rodopiou até pousar em minha mão, mas ia diminuindo ao cair, de jeito que ao tocar a palma aberta, era miúdo feito pluma. E o assoprei em retorno ao ar. Mas havia livros que andavam desajeitados sobre o chão, esbarravam de forma muito engraçada contra outros, depois seguiam seu caminho em seu andar cômico. Quase soltei uma gargalhada. Um dicionário gordo e pesado caiu no chão como se pesasse toneladas, e depois de umas tentativas frustradas de se erguer, tombou deitado no tapete e adormeceu instantaneamente. Dava até para escutar seu ronco cadenciado. Meu livro de estudos de latim pairava em frente ao espelho e se abria e se fechava ensaiando com voz grossa um canto gregoriano. Nessa, um livreto de sagas islandesas veio rolando e se aconchegou como um gatinho em meus pés. E foi esse gesto todo cheio de carinho que por fim me acordou. Meus  pés destapados ardiam de tanto frio. Não restou dúvida: fechei a janela e voltei a dormir.


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