O PROFESSOR ALCEU DA COSTA JÚNIOR fora ateu, convicto. Andava sempre com um sorriso estampado. Sereno. Mas na hora do desespero se transformava. Quando o último fio da razão se rompia, virava o mais crente dos homens e do mundo. A falta de esperança acendia nele a fé mais intensa que eu jamais vira. Não perdia então a oportunidade de pedir, para bem dizer, suplicar, com olhos meio marejados, por orações. Ore por mim, me dizia ao sairmos do bar do Canhoto. Ao passar lá em casa, arranjava um segundinho para pedir à minha irmã beata rezar um terço em seu favor. Os olhos da pobre brilhavam, esperançosos. Nestas fases teístas ligava todos os dias pra Dona Conceição: Me inclua nas tuas orações, mamãe. Com o tempo, no ápice de sua devoção, mesmo na universidade finalizava a aula com uma frase sonora, de despedida: Rezem por mim. Os alunos estremeciam, mas a maioria simplesmente sacudia a cabeça, afirmando. Pois esse pedido assim ao público era o mais eficiente, disso ele sabia, já que na sala havia sempre crentes fervorosos, pessoas certas de sua ligação com o divino. Além disso, havia um trunfo: entre os cristãos haviam não só católicos apostólicos romanos, mas também católicos ortodoxos, luteranos de carteirinha e até pentecostais de todas as divergências. No entanto, o que na verdade lhe garantia o sucesso de seu pedido – pensava aliviado e já certo de ser atendido – era a multiplicidade das crenças ali presentes: kardecistas, umbandistas, alguns judeus, dois ou três muçulmanos. Sem falar na bela Surya… Ah os hindus! Estes com seus milhões de deuses e deusas eram garantia, na certa. Não demoraria muito, e o pedido seria atendido, e tendo sorte, diversas vezes até. Aleluia! Então relaxava, do rosto dissolviam-se aqueles traços nervosos, o sorriso vitorioso renascia. E como se nada tivesse acontecido, professor Alceu voltava sem rodeios a sua fé monoateísta. Abençoado homem! Hoje, saudoso seja, faleceu. Prestes a morrer, no entanto, gemia com o rosto em dor: Rezai por mim! Minha irmã, zelosa, chamara às pressas o padre Deibel. Este mal tivera tempo de debulhar uma ave-maria e Alceu já havia partido. Mas partira assim, todo sorrisos, satisfeito, como quem não tem mais nada a desejar.


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